Quase um terço das casas em Portugal não é a residência habitual de ninguém. Os preços estão em máximos e o imposto sobre imóveis abaixo da média europeia.

Os preços da habitação mais do que duplicaram desde 2015 e as casas existentes já sobem mais depressa do que as novas. Ao mesmo tempo, os Censos 2021 contaram 1,83 milhões de alojamentos onde ninguém vivia habitualmente: 1,10 milhões de residências secundárias e mais de 700 mil vagos, a maioria em bom estado. Ao ritmo de construção nova de 2025, seriam precisos 26 anos para construir tantas casas como as que estavam vagas. E o imposto anual sobre a propriedade quase não mexeu em euros. Esta página reúne os números oficiais lado a lado, até ao nível de cada concelho.

1 828 096alojamentos que não eram residência habitual de ninguém nos Censos 2021, 30,6% do totalINE · Censos 2021
723 215deles estavam vagos; 485 461 destes sem necessidade de reparação ou com reparações ligeirasINE · IHRU, PNH 2024
+17,6%subida dos preços da habitação em 2025, a maior do índice do INEEurostat / INE, IPHab
0,11%IMI médio por prédio urbano em % do valor mediano de uma casa de 100 m²AT · INE, 2025
1 · O parque habitacional

Quase um em cada três alojamentos não era residência habitual em 2021

Os Censos contaram 5 970 677 alojamentos familiares clássicos para 4,15 milhões de agregados domésticos privados. Só 69,4% eram residência habitual. Os restantes 1 828 096 dividiam-se entre 1 104 881 residências secundárias (18,5%) e 723 215 alojamentos vagos (12,1%).

A fronteira entre as duas categorias é menos nítida do que parece. Uma residência secundária é qualquer casa usada só parte do ano: casas de férias, mas também casas de emigrantes, casas de família herdadas e visitadas de vez em quando ou casas de quem trabalha noutra cidade. Um alojamento vago é o que estava desocupado no momento do recenseamento. Em ambos os casos, ninguém vive lá habitualmente. O estudo do IHRU de 2024 concluiu que 485 461 dos alojamentos vagos não precisavam de reparações ou precisavam apenas de reparações ligeiras, e que nenhum município tem falta de alojamentos em termos absolutos.

Alojamentos familiares clássicos por forma de ocupação, Censos 2021

4 142 581Residência habitual · 69,4%
1 104 881Residência secundária · 18,5%
348 097Vago para venda ou arrendamento · 5,8%
375 118Vago por outros motivos · 6,3%
485 461vagos em bom estado (IHRU)
INE, Censos 2021, indicador 0011495 (alojamentos familiares clássicos por forma de ocupação). Estado de conservação: IHRU, estudo do PNH (set. 2024), quadro 11.

As taxas de alojamentos sem residentes habituais são mais altas no interior, onde a população diminui, e no litoral algarvio, onde pesam as casas de férias. Os números absolutos são mais altos onde os preços também o são. O terço dos concelhos com preços mais altos tem a taxa mais baixa, 25,7%, mas concentra 56% (1 028 615) de todos os alojamentos que não são residência habitual. Só Lisboa tinha 77 596, dos quais 47 748 vagos, e Loulé, com 37 631, vinha logo a seguir.

Capacidade habitacional não utilizada. Com a dimensão média de cada concelho em 2021 (2,50 pessoas por alojamento de residência habitual no conjunto do país), os alojamentos que não são residência habitual poderiam acolher cerca de 4,5 milhões de pessoas, 44% da população residente. Só os vagos dariam para 1,78 milhões. São limites máximos: um terço dos alojamentos vagos precisa de reparações médias ou profundas, muitas residências secundárias nunca chegarão ao mercado e boa parte desta capacidade está em zonas com pouco emprego. O mapa mostra as duas versões, por distrito e concelho.

2 · Construção nova

Ao ritmo atual, construir tantas casas como as que estão vagas levaria 26 anos

Em 2025 foram concluídos 27 301 fogos em construções novas para habitação familiar, mais 10,7% do que no ano anterior e o valor mais alto da série do INE, que começa em 2011. A construção nova caiu para 7148 fogos em 2015 e só recuperou aos poucos. Ainda assim, um ano de construção nova ao ritmo atual equivale a 4% dos alojamentos vagos contados nos Censos 2021.

Fogos em construções novas para habitação familiar, Portugal

ConcluídosLicenciados
010 00020 00030 00040 00050 000201120142017202020232025
INE, Estatísticas das obras concluídas (indicador 0013249) e Inquérito aos projetos de obras de edificação e de demolição de edifícios (indicador 0013236).

Anos de construção nova, ao ritmo de 2025, para igualar…

Fogos concluídos em construções novas para habitação familiar, 2025
27 301
…os vagos sem necessidade de reparação ou com reparações ligeiras (485 461)
17,8 anos
…todos os alojamentos vagos (723 215)
26,5 anos
…todos os alojamentos que não são residência habitual (1 828 096)
67,0 anos

O licenciamento também acelerou: 42 066 fogos licenciados em 2025, mais 18,9% do que no ano anterior. Mesmo que todos fossem concluídos no mesmo ano, seriam precisos 17 anos para igualar os alojamentos vagos.

INE, indicadores 0013249 e 0013236; INE, Censos 2021; IHRU, estudo do PNH (set. 2024), quadro 11.

A comparação é aritmética e tem limites. Um fogo novo soma-se ao parque, enquanto um alojamento vago já existe mas pode estar onde há pouca procura, precisar de obras ou não estar à venda nem para arrendamento, e o número de vagos mudou desde 2021. Mostra a escala: o parque já construído onde ninguém vive habitualmente equivale a várias décadas de construção nova.

3 · Preços

As casas existentes sobem mais do que as novas

O Relatório de Estabilidade Financeira do Banco de Portugal de maio de 2026 aponta uma divergência marcante: em 2025, os preços dos alojamentos existentes subiram 18,9%, contra 14,2% nos novos. O Índice de Preços da Habitação do INE, publicado pelo Eurostat, mostra os mesmos valores, e a diferença acumula-se há uma década. Desde 2015, os alojamentos existentes subiram +184% e os novos +112%.

Isto pesa no argumento fiscal. As casas novas são avaliadas para efeitos de IMI ao custo de construção atual. As existentes mantêm o valor atribuído na última avaliação, com um desconto adicional pela idade, pelo que as casas cujos preços mais sobem são muitas vezes as tributadas com base nas avaliações mais antigas e mais baixas.

Índice de Preços da Habitação, Portugal (2015 = 100)

Alojamentos existentesAlojamentos novos
50100150200250300201020132016201920222025
Eurostat prc_hpi_a (Índice de Preços da Habitação, INE), média anual.

Taxa de variação homóloga, por trimestre

ExistentesNovos
0%5%10%15%20%25%1.º T 20243.º T 20241.º T 20253.º T 20251.º T 2026
Eurostat prc_hpi_q, taxa de variação homóloga. Último dado: 1.º trimestre de 2026.

Preços da habitação em 2025, países da UE (2015 = 100)

A subida de Portugal desde 2015 é a segunda maior da UE.
Hungria367Portugal264Lituânia258Bulgária249Chéquia245Croácia227Estónia221Polónia217Países Baixos215Eslovénia215Letónia214Eslováquia204Irlanda197Espanha181Malta174Áustria167Luxemburgo165Roménia165UE-27162Dinamarca153Alemanha153Chipre151Bélgica145Suécia133França127Itália116Finlândia99
Eurostat prc_hpi_a, total de alojamentos, média anual de 2025.

Os rendimentos não acompanharam. O rácio padronizado preço da habitação/rendimento do Eurostat para Portugal estava em 85% da sua média de longo prazo em 2015 e em 123% em 2024, antes da subida de 2025.

A série municipal do INE mostra até onde a pressão se alastrou. Nos 12 meses até março de 2026, o valor mediano das vendas foi de 2168 €/m² no país, mais 17,5% do que um ano antes. 55 concelhos ficaram acima desse valor, e Lisboa liderou com 5082 €/m².

Eurostat tipsho60; INE, Estatísticas de Preços da Habitação ao Nível Local, 1.º trimestre de 2026 (indicador 0012234).
4 · O imposto

O IMI por prédio está estagnado em euros enquanto os preços disparam

A coleta de IMI sobre prédios urbanos relativa a 2025 foi de 1,65 mil milhões de euros, em 7,05 milhões de prédios tributados: cerca de 234 € por prédio. Em 2015, o valor era 230 €. Na mesma década, os preços no consumidor subiram 25% e os da habitação 164%.

Preços face ao imposto sobre a detenção de imóveis (2015 = 100)

Preços da habitaçãoPreços no consumidor (IHPC)IMI por prédio urbano
501001502002503002013201520172019202120232025
Eurostat prc_hpi_a, prc_hicp_aind; AT, Estatísticas do Património (coleta de IMI ÷ prédios urbanos tributados), compilado por IMI Timetravel.

Quanto paga uma casa típica, 2025

IMI médio por prédio urbano
234 €
Valor mediano das vendas, 2025 (INE)
2076 €/m²
Valor de mercado de uma casa de 100 m²
207 600 €
IMI em % do valor de mercado
0,11%

Os prédios urbanos incluem lojas, escritórios e garagens, além de habitações, pelo que este valor é aproximado. A taxa legal varia entre 0,30% e 0,45% do valor patrimonial tributário (VPT), e 204 dos 308 concelhos aplicam a taxa mínima de 0,30% em 2025.

VPT = Vc × A × Ca × Cl × Cq × Cv

Vc é o valor médio de construção por m², fixado anualmente por portaria: 570 € para 2026 (Portaria n.º 471/2025/1), face a um valor mediano de mercado de 2168 €/m². Cl, o coeficiente de localização, varia entre 0,4 e 3,5. Cv, o coeficiente de vetustez, reduz o valor dos prédios mais antigos, até 0,40 para os que têm mais de 60 anos. Um prédio mantém o seu VPT até ser reavaliado.

Impostos periódicos sobre terrenos e edifícios, % do PIB, 2023

Portugal arrecada 0,6% do PIB, face a uma média da UE de 0,9%. A França arrecada 2,1%.
França2,1%Grécia1,3%Bélgica1,2%Dinamarca1,2%Itália1,0%UE-270,9%Espanha0,9%Finlândia0,8%Polónia0,7%Portugal0,6%Países Baixos0,6%Suécia0,6%Croácia0,6%Letónia0,6%Alemanha0,4%Irlanda0,4%Eslovénia0,4%Eslováquia0,4%Hungria0,3%Chipre0,3%Roménia0,3%Áustria0,2%Bulgária0,2%Estónia0,2%Lituânia0,2%Chéquia0,1%Luxemburgo0,1%
Eurostat gov_10a_taxag, SEC 2010, rubrica D29A, administrações públicas. Valores publicados com uma casa decimal.

O imposto pago uma única vez na compra, o IMT, já rende mais do que o imposto anual sobre a propriedade. As contas municipais mostram 1,73 mil milhões de euros de IMT cobrados em 2024, contra 1,50 mil milhões de IMI. Dez anos antes, o IMI rendia três vezes mais.

IMI (imposto anual)IMT (pago na compra)
0 M€500 M€1000 M€1500 M€2000 M€201420162018202020222024
DGAL, Contas de Gerência, soma dos 308 municípios, milhões de euros por ano de cobrança.

As penalizações para casas vazias já existem no papel. Um prédio devoluto há mais de um ano paga o triplo do IMI. Nas zonas de pressão urbanística, a taxa sobe para o sêxtuplo e agrava-se 10% em cada ano seguinte, até ao limite de doze vezes (arts. 112.º e 112.º-B do CIMI). Tudo depende de cada câmara declarar os prédios devolutos.